Não me lembro como fui parar ali, lembro de pouca coisa. Eu corria, gritava por socorro, sentia dor, medo e nojo.
Alguém corria atrás de mim, não eram 2,3 ou 4, eram vários. Eles eram grandes e estavam com fome, muita fome. E, infelizmente, naquela noite eu seria o prato principal.
Eu pedia para que parassem, disse "não" inúmeras vezes. Porém, minha voz parecia nunca ser ouvida. A brutalidade deles me fez ficar desacordada, indefesa.
Ao acordar eu já estava sozinha. Não havia sequer uma parte do meu corpo que não doesse. Via sangue por todo lado. Minhas pernas já não conseguiam sustentar o peso do meu corpo. Eu estava abandonada e não sabia o que fazer.
Olhei ao meu redor, além do sangue, a terra apresentava pegadas. Foram porcos selvagens, grandes porcos selvagens que me deixaram naquele estado.
Eu busquei ajuda, contei tudo o que passei, mostrei o local em que tudo aconteceu, as marcas de sangue, os machucados no meu corpo. Pensei que iriam me acolher, mas não foi assim. Perguntaram o que eu fazia aquela hora na floresta, perguntaram se eu costumava ir até lá, se eu havia provocado algum dos integrantes da vara.
Eles estavam certos. O que eu fazia lá aquela hora? A culpa é toda minha! Olhem meu passado, minhas atitudes, minha vida! Eu merecia isso! Se eu fosse recatada e se eu estivesse em casa, isso não aconteceria.
Era a minha palavra contra a deles, eram os fatos contra os porcos. Quem, em sã consciência, acreditaria em alguém como eu? Os porcos imundos sempre têm a razão. E nós? Bom, nós sempre somos o prato principal.
Julia Ribeiro
