terça-feira, 10 de março de 2020

Sobre gestos que nos transformam

Hoje eu conheci o Gustavo, ele tem 14 anos, vestia uma calça preta e uma camiseta verde limão, disse que talvez não vá pra escola esse ano porque a mãe não matriculou, contou também que ela é diarista e sustenta a casa sozinha, porque o pai não mora junto com eles.
O Gustavo falou que nunca tinha comido "o sorvete roxo que tem gosto bom" (açaí). E ficou encantado com a variedade de sabores: "eu nem sabia que existia tanto tipo de sorvete assim no mundo, tia", e realmente, no mundo dele talvez não exista mesmo.
Eu nunca vi alguém misturar tantos sabores e acompanhamentos, enquanto ele comia me disse que nem sabia mais quais sabores tinha escolhido, porque foram vários. Ele escolheu uma cobertura de sorvete azul, que eu perguntei do que era e ele presumiu que fosse tutti fruti, mas depois voltou no buffet pra ver o nome e era groselha.
O Gustavo contou que quando crescer quer ser funkeiro e que às vezes canta umas músicas, mas nunca escreveu nenhuma.
Ele também tinha um relógio no pulso, que não funcionava, mas segundo ele "é só pra dar um estilo mesmo".
Quando o Gustavo terminou de comer ele me agradeceu e perguntou se poderia me abraçar, eu não sei dizer ao certo, mas acho que aquele abraço colou meus caquinhos.
Antes de sair pela porta perguntou meu nome e disse que não esqueceria nunca de mim. Ô, Gustavo, eu também não e espero que um dia esse texto chegue até você, porque você me mudou, menino.
E como eu disse: volta pra escola, teu lugar é lá.
Ainda existe quem olha no olho e você me provou isso hoje, obrigada.

Julia Ribeiro