domingo, 9 de julho de 2017

Olhos amétropes que focam em ti


  Eu sempre gostei de tirar os óculos para ver como tudo fica tão diferente embaralhado. Eu gosto das luzes borradas, as ruas sem formas e como as estrelas ficam mais bonitas. Gosto de identificar as pessoas pelo jeito que andam ou pelo perfume que passam. Gosto da incerteza de não saber se alguém me olha.
  Acho que são gostos como esses que me levam a gostar de você. Um alguém tão embaralhado e incerto, cheio de perguntas, anseios e sem verdades absolutas. Foi quando eu tirei meus óculos que percebi o abismo que tenho por ti.
  O seu sorriso ilumina tudo e passa a nitidez que nenhuma lente poderia passar. Eu me apaixonei pelo seu caos, pelo seu rosto desfocado e seus pensamentos embaralhados.
  Eu me apaixonei pelo seu borrão, o mais lindo que meus olhos astigmatas já viram.
  Ainda que eu precise usar meus óculos o tempo todo - para ver o que está escrito na lousa ou a placa do carro da minha mãe - eu adoro o fato de tirá-los apenas para perceber os vultos que ninguém vê.

Julia Ribeiro